Ensaio.
Assim que acabaram as aulas e voltei pra casa, almocei e fui fazer
minhas atividades que os professores haviam passado, terminei eram umas 15:40,
olhei ao redor do meu quarto, ele estava um tanto bagunçado então me levantei e
me pus a arruma-lo, quando terminei fui direto tomar banho, coloquei uma roupa
não tanto casual, mas que não parecia que iria a uma festa!. Já era 16:58,
então desci as escadas pra esperar o Austin chegar, estava em casa apenas eu e
Lucy, a empregada, meus pais provavelmente chegariam só depois as 19:00, graças
a Deus!. Antes de terminar todos os degraus, escutei a campainha tocar e fui
atender, assim que abri vi Austin parado encostado no batente da porta e com o
violão encostado na parede. Pela primeira vez no dia fiquei nervosa em tê-lo na
minha casa. Sem saber o que falar, mordi o lábio inferior
-Claro- Dei espaço, ele pegou o violão e entrou, fechei a porta logo em
seguida, vendo que ele já estava na sala
-Minha mãe pediu pra entregar isso pra sua!- Ele disse e me entregou um
embrulho, que até aquele momento não havia percebido que estava em suas mãos-
Ela disse que era porque não se viam há muito tempo, podia parecer que havia se
esquecido dela e elas eram amigas e bla bla bla...- Ele disse revirando os
olhos
-Ela não ta, mas eu entrego a ela depois- Eu disse e me virei- Vem,
vamos subir- Falei já indo pras escadas- Pode ir entrando- Disse abrindo a
porta do meu quarto enquanto passava direto e ia até o dos meus pais, colocando
o embrulho que ele tinha me entregado em cima da cama deles, logo voltando até
o quarto, ele estava sentado na minha cama tirando a capa do violão dele que ele
tinha trago para nós ensaiarmos. O mesmo violão. Fui até a mesinha onde ficava
meu notebook e peguei duas folhas que estavam com a cifra da música que iríamos
tocar, estendi meu braço pra ele e ele as pegou, depois fui pegar meu próprio
violão, que estava ao lado da minha cama, o peguei e sentei do lado dele
-Como vamos fazer? Os dois vão tocar ou só um?- Perguntou me encarando e
eu dei de ombros
-Tanto faz, o que você prefere?- Perguntei pela primeira vez cogitando
que ele tomasse as rédeas do trabalho
-Vamos primeiro ensaiar, depois pensamos nisso!- Ele falou já começando
a tentar pegar as notas necessárias, o imitei e também comecei, mas eu já sabia
a melodia dela de trás pra frente, então já tinha ideia de como a tocar, então
fui bem mais rápida que ele
-Assim ó- Comecei a tocar quando vi que ele havia se perdido e ele parou
pra olhar o modo como posicionava os dedos nas cordas mais lento do que na
música, pra facilitar pra ele- No, this isn't what I wanted (Sei
que isso não era o que eu queria)- Comecei a cantarolar para não me perder
na música- Never thought it'd come this far (Nunca pensei que isso
chegaria a esse ponto)- Continuei e olhei pra ele pra ver se estava
tentando pegar a música, mas ele apenas me encarava e nossos olhos se cruzaram,
me fazendo ficar envergonhada e ia parar de cantar, ele percebeu
-Continua- Ele pediu. Por um momento lembrei uma época há bastante tempo
atrás, eu sempre odiei cantar ou tocar em publico, pra qualquer pessoa que
fosse, mas eu e Austin sempre costumávamos tocar juntos, e ele sempre pedia pra
que eu cantasse enquanto tocávamos, e eu sempre fazia, não me importava de
cantar na frente dele, era como se ele fosse diferente dos outros que me
pediam. Não sei por que, mas quando vi já havia continuado a cantar
- Thinkin' back to where we started (Apenas lembrando onde
começamos)- Engoli em seco e meu coração apertou ao finalmente prestar
atenção na letra da música, ela se encaixava perfeitamente naquele momento- And
how we lost all that we are (E como perdemos tudo o que somos)-
Parei. A primeira parte do dueto ia até ali, voltei a encara-lo e nossos olhos
ficaram presos um no outro, não era difícil se perder nos profundos olhos do
Austin, nunca foi, estávamos próximos e isso dificultava ainda mais minha vida
pois dava para ver cada camada das cores dos seus olhos ainda mais de perto.
Prendi a respiração, nervosa, sem saber como agir e já ficando apreensiva com
aquele silêncio e troca de olhar. Foi então que de uma hora pra outra, como se
não houvesse nele a dificuldade que havia em mim de desprender de seus olhos,
ele se concentrou em um canto qualquer do quarto
-Não acredito que você ainda guarda isso!- O ouvi dizer enquanto se
levantava, com seus olhos brilhando, e passava por mim, indo até a estante que
tinha no meu quarto, onde eu guardava livros, CDs, e tinham alguns enfeites,
ele pegou de lá um ursinho que deixava do lado de uma fotografia minha e da Vic
-Pois é, não consegui me livrar- Disse e me senti desconfortável quando
ele olhou pra mim sorrindo- Mas qualquer dia desses eu doou pra alguém!- Dei de
ombros, fingindo descaso. Lembrava quando havia ganhado ele, foi numa viagem da
escola até o parque de diversão que estava montado para arrecadar fundos pra
reforma no laboratório, nesse tempo Vic nem havia se mudado ainda, Austin era
meu único amigo, e fomos juntos á uma barraquinha de acertar a argola no arco,
eu não consegui nem sequer uma, enquanto ele acertou as três tentativas, o
homem então deu pra ele esse urso e no fim ele acabou dando pra mim, lembro
também de tê-lo abraçado e visto ficar com as bochechas coradas, naquela época
eu não entendia o motivo, mas hoje sei que era simplesmente por ele ser um
menino, e meninos não são bons em demonstrar momentos de carinho em publico
-Nossa, se vai fazer pouco caso pode dar pra mim que arranjo alguém que
queira!- Ele disse, se fingindo de decepcionado e eu apenas revirei os olhos.
Não iria realmente dá aquele ursinho, mas, mesmo se fosse, não o devolveria pra
que ele desse pra uma das dezenas de garotas que correm atrás dele
-Que tal voltarmos a ensaiar?- Perguntei voltando a me virar e pondo as
primeiras notas
-Ficou estressadinha do nado, eu hein!- Ele falou, voltando a se sentar
e pegando o violão. Não era do nada, eu só estava irritada de ficar tanto tempo
perto dele, eu não gostava disso, ficar com essa nostalgia desnecessária.
Depois continuamos apenas ensaiar e não falamos nada mais que não fosse
relacionado a música. Não voltei a cantar, era melhor assim. Mais ou menos uma
hora depois ele foi embora e eu agradeci a Deus, logo chegaria o sábado e iria
me livrar de ficar ao lado dele. Iria me livrar de ter tantas lembranças sobre
ele, minha vida voltaria o normal.
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